0
Leia Mais...
O Anônimo
![]() |
| Pyramid Head, Silent Hill |
Com os que entravam pela enorme porta dupla, apenas os sons dos sapatos no piso liso. Esperávamos a um canto a conversa de nossa mãe com outra mulher que eu não ousava curiosar. O lugar se enchia de sussurros.
Parecíamos os únicos sem uniformes empresariais - minha mãe, meu irmão e eu. Prendiam-me mais o teto e as paredes do que as pessoas, na verdade; uma enorme abóbada ao alto e flores branco-desbotadas sobre o carpete verde.
Minha mãe nos chamou minutos depois, com uns tapinhas nos ombros. Subimos, degrau por degrau, até o primeiro andar. Aí, a surpresa: eram estantes colossais, mas não tinham livros - tinham gavetas de ossuários. Fileiras delas. Lá, a luz era pouca, mas suficiente.
Era estranha a forma com que as coisas divertiam a mim e ao meu irmão, ao invés de nos assustar. Mas dez passos até a primeira estante e separamo-nos de nossa mãe, que agora andava pelos corredores ao lado da mulher, além de conversar. Inundavam-me a cabeça o incentivo de meu irmão para nos divertindo pelos corredores e o medo de que minha mãe nos esquecesse lá dentro. Que bobagem, pensei, sou grande para temer isso.
Andamos até cansar as pernas e nos sentamos numa espécie de tumba deitada no chão, a qual envolvia, com madeiras e concreto, um caixão. À esquerda havia outra escada, de madeira bem-lustrada, onde começava o próximo andar.
De repente, tudo era um silêncio vasto.
- Será que elas estão lá em cima? - perguntou meu irmão.
Dei de ombros - as palavras não saíram. Eu não sabia a resposta. E, assim que me virei para ir verificar o andar de cima, o peito aliviou; ouvimos passos no último corredor, de onde havíamos vindo. E o ar se foi mais rápido do que veio: era um rapaz um pouco mais alto, moreno e de cabelos compridos. Sua blusa era aberta no meio e a calça - cheia de fivelas - era folgada sobre as botas pretas. E na mão tinha um facão.
Tateei, sem desviar os olhos dele, até encontrar meu irmão - e este, por sua vez, estava gelado. O cara deslizava as mãos nas gavetas das estantes, procurando com os olhos algum nome. Talvez tivesse percebido nossa presença antes, mas só olhou de esguelha, vez ou outra.
- Vamos sair daqui... - falou baixinho, o meu irmão, mas parou subitamente ao perceber que sua voz tinha eco no salão. O outro não olhou, mas sua expressão não era das melhores desde que apareceu... E ele também se foi antes de escolhermos por onde sair.
Andamos rapidamente atrás dos sussurros que surgiam pelos corredores. Não aparentávamos estar com medo, sinceramente. Mas os passos, sim, nos pareciam as coisas que mais desejávamos, e sempre se afastavam.
Então paramos. Era outra escada, e nossa mãe acenava com a mulher no fim do corredor. Meu irmão deu o último sorriso, de alívio, talvez. Depois, contou-me que ia até o andar de cima para procurar algo divertido, e quando foi, voltou abalado. Seu rosto era de lágrimas, quando perguntei o que havia acontecido, e só o que ele pôde dizer foi: "O homem..."
Pedi a ele que fosse até nossa mãe, mas apenas tentou impedir-me de matar a curiosidade. Suas mãos eram uma prece, quando o olhei ao pé da escada. E as do rapaz misterioso eram somente carcaça no chão, orando em cima do peito. Ele se encontrava caído no chão, bem longe, sobre a possa de seu próprio sangue, à frente de um lance de gavetas. O facão devia estar por ali, atrás do corpo, e o pescoço não era mais o mesmo.
0
Se vocês morressem...
Acorde, é pranto de natal
Leia Mais...
Aqueles amados se foram há muito
As meias estão penduradas, mas quem liga?
Preservadas àqueles não mais presentes
E a seis pés abaixo de mim dormem
Assinar:
Postagens (Atom)



